Presidente Jair Bolsonaro

Custo Bolsonaro? Para economistas, problema fiscal não justifica câmbio atual

Não é de hoje que temos ouvido de especialistas que as últimas decisões do governo federal têm sido recebidas da pior forma possível pelos agentes do mercado.

O argumento principal é que os aumentos de gastos anunciados para a implementação do novo programa social e do auxílio aos caminhoneiros colocam em xeque a credibilidade da política fiscal.

Isso porque, para financiar os novos programas, será preciso furar o teto de gastos públicos, e isso, aparentemente, está afastando os investidores estrangeiros.

Porém, apesar de grave, os efeitos deletérios do rompimento de gastos não são tão dramáticos para a sustentabilidade fiscal quando olhamos de um horizonte maior.

Para Sergi Landau, economista chefe do Institute of International Finance (IIF), mesmo que o Brasil burle o teto de gastos, isso colocaria o país em uma boa posição, em comparação com outros emergentes, na gestão das contas públicas.

 “Em 2022, muito poucos países emergentes voltarão aos níveis de gastos de 2019. A maioria está longe da normalização. Se o Brasil ultrapassar o limite de gastos entre 0,4% a 0,8% do PIB, ainda estará longe dos maiores gastadores. Contornar as regras não é bom, mas, colocando na perspectiva geral dos países, as coisas não são terríveis”.

“Se o Brasil gastar 0,4% do PIB a mais em apoio à renda para os pobres, a regra fiscal será violada, mas o gasto primário não será maior do que em 2019. Não é um resultado terrível; a maior parte dos gastos ambiciosos de emergência acabou. Haverá muitas exceções à regra fiscal nos próximos anos”, completou Landau em outra postagem no Twitter.

Robin Brooks, também economista do IIF, afirma que a situação atual do Real é estranha, principalmente quando consideramos a melhora dos termos de troca, devido a valorização das commodities.

“O real do Brasil está quase em seu nível mais fraco de todos os tempos, USD/BRL 5,90, em maio de 2020, durante a primeira onda de COVID. Desde então, os preços das commodities subiram maciçamente, elevando os termos de troca do Brasil e, no entanto, aqui estamos: de volta ao fundo do poço. Não faz nenhum sentido!”, afirmou Brooks em seu Twitter.

Vale destacar também que o cenário fiscal para o fim de 2021 deverá ser melhor do que as estimativas feitas no fim do ano passado, que previam um endividamento de mais de 100% do PIB.

Conforme dados divulgados pelo Banco Central, a relação Dívida Bruta/PIB ficou em 82,7% em agosto. Esse percentual é menor que os 83,1% de julho (dado revisado).

Custo Bolsonaro

Entre agosto e outubro o Real foi a segunda moeda que mais se desvalorizou no mundo, atrás apenas da Lira turca. 

Desde o dia 22 de setembro de 2021 o Banco Central do Brasil (BCB) aumentou a Selic em 250 pontos base, ao passo que o Banco Central da Turquia, surpreendendo os mercados financeiros, reduziu a taxa básica de juros em 300 pontos base. 

Esse cenário indica um paradoxo em que os efeitos da política monetária brasileira vão na contramão da teoria convencional. 

Neste caso, o aumento da taxa de juros levou a uma depreciação da taxa nominal de câmbio, o que deverá aumentar, ao invés de reduzir, as pressões inflacionárias nos próximos meses.

Para o economista José Luis Oreiro, professor do departamento de economia da Universidade de Brasília (UNB), esse paradoxo é explicado pelo que ele chama de “custo Bolsonaro”.

Esse custo seria a combinação entre “política ambiental desastrosa, conflitos diplomáticos frequentes com nosso principal parceiro comercial e a incerteza política causada pelos frequentes ataques do Presidente da República às instituições democráticas do país fazem com que o investidor externo fuja do país como o diabo foge da Cruz”, afirmou Oreiro em entrevista ao El País. 

Ainda segundo o economista, “o aumento da taxa de juros pode ser contraproducente ao sinalizar para os mesmos que as aplicações no Brasil são, de fato, muito arriscadas pois o Banco Central do Brasil é uma das poucas autoridades monetárias do mundo que está aumentando de forma significativa a taxa de juros básica para enfrentar um choque de oferta de caráter temporário que está ocorrendo no mundo inteiro.”