O Banco Central acertou em elevar a Selic para 9,25%?

Ontem, na quarta-feira (09/12), o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu repetir a decisão da última reunião de elevar a taxa Selic para 9,25% a.a.

Em seu comunicado, o Copom justificou sua decisão de elevar os juros da seguinte forma: “diante do aumento de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista.” 

Para a próxima reunião, é esperado que se mantenha a mesma estratégia de aperto, com outro ajuste de mesma magnitude, ao menos até que “se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”.

Críticas ao aperto monetário

Embora o Banco Central (BC) esteja lutando contra a persistência da inflação, o fato é que o descontrole do nível de preços é um fenômeno global, verificado em praticamente todos os países dos quatro cantos do globo.

A principal crítica de alguns economistas é que os juros é um instrumento usado para combater a inflação quando esta é derivada de fatores de demanda e não de oferta, como é o caso de agora. 

As restrições de mobilidade para o combate da pandemia desequilibrou as cadeias globais de produção e interrompeu o fornecimento de commodities e componentes industriais.

Com isso, os 7,25 pontos percentuais de aumento nos juros pouco afetaram a subida dos preços e do câmbio.

Atividade mais lenta pesa contra aumento no futuro

Outro ponto de crítica ao forte aperto monetário se refere aos efeitos do patamar atual da Selic sobre a atividade econômica.

Inclusive, vários analistas e instituições financeiras têm estimado uma recessão para o Brasil em 2022. 

Para Rafaela Vitória, economista do Banco Inter, esse fator pode mudar os rumos do aumento da Selic já na próxima reunião do Copom.

“Copom subiu a Selic como esperado em 1,5 p.p. e foi mais hawkish no comunicado, mais preocupado com as expectativas de inflação, e assim espera +1,5 de novo em fevereiro. Porém, a atividade está bem mais fraca, o que foi pouco comentado. Bem provável vir menos na próxima”, disse a economista em sua conta no Twitter.

“9,25% já é uma taxa bem alta, e o aperto monetário que já foi dado, +7,25 p.p., muito elevado e que ainda não fez efeito. Até fevereiro podemos ver impactos nas revisões de expectativa, com hiato maior, matérias primas e outros custos acomodando, e risco fiscal mais controlado”, completou.

Dominância fiscal

Outros economistas têm aliviado as críticas sobre o BC e concentrado o foco no que, para eles, é o principal vilão: a política fiscal do governo federal.

Para estes, a reação do BC de elevar a Selic é apenas um subproduto da condução irresponsável da política de gastos por parte do governo federal e do congresso, cuja aprovação da PEC dos Precatórios colocou um fim simbólico à regra do teto de gastos

Com o descontrole fiscal, sobrou para o BC o papel de compensar o conjunto de estímulos, com uma contração monetária, para tentar manter o nível de preços sob controle.

“No limite o Banco Central é o RI do Governo Federal. Isso para não dizer que é a ‘conta erro’ da política fiscal”, afirmou André Perfeito, economista da corretora Necton, no seu Twitter.

Outra crítica importante sobre a situação da política econômica como um todo é que o aumento da Selic praticamente eliminaria os efeitos da própria PEC dos Precatórios. Isso porque a subida dos juros pressionará os gastos com serviço da dívida, o que diminuirá, consequentemente, o espaço fiscal aberto pela própria PEC.

“O comunicado do BC indica continuidade da alta do juro. É o resultado de jogar para o alto a política fiscal e as regras do jogo. A dívida, sob uma taxa que poderá chegar a 12%, vai subir fortemente. O espaço fiscal da PEC 23, como tudo que é líquido, sumirá no ar.” comentou Felipe Salto, economista do Instituto Federal Independente.