Bitcoin

Um mês de Bitcoin em El Salvador

Início turbulento

O aporte base feito pelo governo para a revolução custou cerca de US$ 20 milhões (Cerca de R$ 103 milhões à época), além de outros US$ 130 milhões para apoiar toda a operação, como por exemplo os investimentos feitos nos 200 caixas eletrônicos preparados para as transações entre dólares americanos e Bitcoin (BTC).

O presidente e principal idealizador de todo o projeto, Nayib Bukele, foi à público algumas vezes para tentar esclarecer questões referentes à Bitcoin e seu plano de uso no país, mas as pesquisas indicavam que o povo de El Salvador ainda se sentia muito distante tanto da compreensão de como funciona efetivamente a moeda digital, quanto da aceitação dessa novidade como um todo. 

Isso porque de acordo com pesquisa feita pela Universidade Centro-Americana (UCA), praticamente 90% dos salvadorenhos declaravam saber “nada ou pouco” sobre a criptomoeda, enquanto de cada 10 entrevistados, 7 se opuseram à sua adoção. 

Muitas outras críticas e receios surgiram de dentro e de fora das fronteiras de El Salvador. Primeiramente, por conta da volatilidade da moeda, que num espaço de dois meses – entre maio e abril – viu seu valor despencar de US$ 64 mil para quase US$ 30 mil. Pela primeira vez em dois anos e meio de mandato, o presidente latino-americano com o maior índice de aprovação foi alvo de duras críticas e até mesmo manifestações.

Em meio à prós e contras, o primeiro dia do Bitcoin em El Salvador não foi necessariamente fácil. Além dos problemas de superlotação dos servidores da Chivo – carteira digital oficial do país – terem tirado a plataforma do ar em muitos momentos, o dia foi de queda na cotação do ativo, que chegou a bater U$57 mil com a euforia da novidade, mas se desvalorizou em cerca de US$ 10 mil ao fechar na casa dos US$ 47 mil, com a resistência se mantendo nesse patamar similar pelos dias subsequentes.

A prova de fogo veio mesmo a partir do dia 18, quando se iniciou um movimento brusco de queda no mercado, que perdurou até o dia 28 do mês de setembro. Nesse espaço de tempo, o Bitcoin chegou a desvalorizar mais de 10% em no espaço de 1 dia (entre os dias 19 e 20), além flutuar abaixo dos US$ 41 mil nos dias 21 e 28.

A baixa, no fim das contas, foi causada por fatores inerentes à economia salvadorenha, com investidores do mundo todo mudaram seus posicionamentos no mercado de BTC e de criptos como um todo frente aos aos problemas ocorridos na China (banimento de mineração e negociação de criptomoedas e crise interna no mercado imobiliário). Só que de qualquer forma, o temor tomou conta da população, enquanto os críticos ao ambicioso plano usaram do momento para embasar suas teses.

Ponto de virada

Enquanto uma “micro” crise econômica se instaurava, Bukele seguiu os protocolos de um investidor que acredita no ativo: “They can never beat you if you buy in the deep”, tweetou o presidente enquanto anunciava a compra de mais 150 Bitcoins para o país. A postura se manteve durante os períodos de baixa, para que que das 400 unidades originais, o total de moedas em posse do governo de El Salvador saltasse para 700.

E a decisão se pagou. A reação do mercado de criptos foi mais forte do que se imaginava junto aos investidores que também compraram na baixa, enquanto os ativos ganharam cada vez mais visibilidade em setores diversos, com destaque para as falas de Jerome Powell, (presidente do Banco Central dos Estados Unidos) negando qualquer chance de impedimento às criptomoedas e – pelo menos por hora –  indicando uma aproximação mais amistosa para novas possibilidades.

Do patamar de US$ 41 mil ainda no dia 28 de setembro, o Bitcoin voltou aos US$ 44 mil dois dias depois, em um movimento de crescimento que explodiu no começo de outubro, fechando o dia 1º acima dos US$ 48 mil (indicando crescimento acima dos 10%), e abrindo justamente o dia de hoje, 7, em US$ 55.345,85 – crescimento de mais de 35% desde a compra feita na baixa pelo governo Salvadorenho.

Enfim, otimismo

Com isso, os ventos de mudança começam a soprar em El Salvador. O primeiro e mais importante dos pilares estabelecidos por Bukele já mostra sinais de sucesso, com os números baixos de bancarização populacional, com somente 30% dos residentes (1,8 milhão) tinham contas em banco para movimentar seus recursos) já sendo superado em um mês pelo número de carteiras Chivo abertas com documentos locais (2,1) ainda no dia 27.

Os números indicam que, agora, mais salvadorenhos poderão transacionar Bitcoins nacional e internacionalmente sem pagar taxas, fator importante para um PIB que tem como maior fatia a recepção de remessas vindas dos Estados Unidos (22%). Outra aposta de Bukele e sua equipe que já se torna realidade em pouco espaço de tempo.

No dia 1º de outubro foram anunciados os primeiros Bitcoin minerados a partir da energia geotérmica produzida por vulcões, considerada renovável. A mineração ainda está em seus primeiros passos, mas além de caminhar junto à estrutura local sem promover muitos mais gastos (23% da energia em El Salvador já é geotérmica), torna-se uma solução satisfatória para o problema tradicional de altos custos energéticos no processo de mineração e seus posteriores danos ao meio ambiente.

Por fim, talvez o mais esperado. Cresce exponencialmente o número de relatos que envolvam a Chivo e o Bitcoin no dia-a-dia do povo de El Salvador, indo de seu uso no comércio à aproximação de conceitos de investimento do setor. Pouco a pouco, a fronteira do que antes era abstrato e desconhecido vai se revelando como uma tentativa válida de acender, em definitivo, a economia do país.

Ainda há muita coisa para acontecer na caminhada do Bitcoin em El Salvador. Mas por mais que haja quem torça o nariz, os números que abriram o mercado deste também importante 7 de outubro não indicam nada além de sucesso.