Quase inversão da curva de Juros no Brasil acende alerta de recessão

Ontem (28/10) o Banco Central (BC) decidiu por aumentar a taxa básica de juros (Selic) em 1,5%. Com isso, a Selic passou de 6,25% para 7,75% ao ano.

Essa reação da autoridade monetária tem sido atrelada à política do governo de flexibilizar o teto de gastos.

Com a deterioração fiscal, grande parte dos analistas temem uma maior pressão sobre a inflação, o que requer um aperto monetário maior para evitar que a situação saia do controle.

O problema é que essa decisão joga pressão sobre a atividade econômica, pois juros mais altos inibem a produção e os investimentos. 

Consequentemente, o contexto da política econômica brasileira gerou reação negativa nos mercados, de modo que os agentes já vislumbram uma estagnação, e outros até mesmo uma recessão, no próximo ano.

Isso é refletido na curva de juros dos títulos públicos, que na verdade deixou de ser curva para virar uma reta.

O que aconteceu foi que os juros de longo prazo estão no mesmo patamar que os juros de curto prazo. 

Tal situação sinaliza que o mercado espera uma desaceleração da economia pela frente, o que implicará na necessidade de um afrouxamento monetário em um futuro próximo.

O que é a curva de juros?

A curva de juros, também chamada de curva a termo, é um gráfico que expressa a taxa de juros cobrada para um título de mesma qualidade mas com períodos de tempo diferentes.

Geralmente, quanto maior o tempo de maturidade de um título, ou seja, quanto mais longo for o seu vencimento, maior tenderá a ser os juros pagos pelo título.

Porém, isso não é uma regra geral, pois pode ocorrer casos em que os juros longos sejam iguais ou até mesmo inferiores aos juros dos títulos de curto prazo.

Assim, além do formato positivamente inclinado, temos que a curva de juros também pode ter inclinação horizontal (também chamada de flat) ou negativa (curva invertida).

Curva de juros no Brasil

No Brasil, atualmente temos uma curva de juros “flat”, pois os juros de longo prazo estão no mesmo patamar dos rendimentos dos títulos de curto prazo.

A literatura mostra que este é um sinal típico de um momento de transição das expectativas em relação ao futuro da economia.

Quando a economia está passando da expansão para uma estagnação, ou até mesmo recessão, os rendimentos dos títulos de vencimento mais longo tendem a cair.

Isso significa que o mercado espera que, em um prazo não tão longo, a autoridade monetária terá que começar a diminuir os juros devido à desaceleração da economia.

O estranho é que ainda não chegamos a acelerar, pois o crescimento deste ano, que provavelmente virá próximo aos 5%, será apenas suficiente para recuperar a recessão de 2020.

Já para o ano que vem, vários analistas do mercado não esperam um futuro muito promissor. 

Segundo o relatório Focus, o crescimento do PIB estimado pelo mercado é de 1,4%. 

Porém, as projeções estão só caindo a cada consulta feita. No início do ano as expectativas eram de que o país cresceria cerca de 2,5% em 2022. 

Inclusive, já há instituições que estão prevendo uma recessão de 0,5% para o ano que vem, como é o caso do Itaú Unibanco.

Relatório Focus: piora das expectativas reflete últimas decisões do governo

Como já esperado, as últimas decisões do governo federal foram vistas da pior forma possível pelos agentes do mercado.

Os aumentos de gastos anunciados para a implementação do novo programa social e do auxílio aos caminhoneiros colocam em xeque a credibilidade da política fiscal do governo Bolsonaro.

Isso porque, para financiar os novos programas, será preciso furar o teto de gastos públicos.

Dessa forma, os receios do mercado com a inflação, câmbio, juros e o crescimento do PIB refletiram instantaneamente, na semana passada, na curva de juros dos títulos de dívida do Tesouro e no Ibovespa.

Já no início desta semana, o mal humor dos mercados segue representado pelos dados divulgados no relatório Focus, divulgado pelo Banco Central em todas as segundas-feiras.

IPCA e PIB

De acordo com o relatório, as expectativas dos agentes para as variáveis macroeconômicas deste e do próximo ano pioraram significativamente.

Para o IPCA de 2021, as estimativas passaram de 8,69% para 8,96%, enquanto há 4 semanas estavam em 8,45%.

O cenário ruim também contaminou as expectativas para o ano que vem, visto que a expectativa de inflação foi de 4,18% para 4,4%.

Sobre o PIB, os economistas consultados pelo BC pioraram suas projeções de crescimento, de 5,01% para 4,97%, enquanto há quatro semanas estava em 5,04%.

Para 2022, a estimativa de também caiu, de 1,5% para 1,4%.

Selic

A guinada populista de Bolsonaro e sua equipe econômica elevou as atuais expectativas da taxa Selic no fim do ano, de 8,25% para 8,75%.

Inclusive, muitos analistas já estimam um maior aumento da taxa básica de juros nesta próxima reunião do Copom.

Na reunião desta semana, é esperada uma alta de 125 pontos-base, acima de 1 ponto percentual prometido pelo Copom no comunicado da última reunião. 

A expectativa é de uma alta para 7,5% (antes para 7,25%), de 6,25% atualmente.

Essa mudança de perspectiva já vinha sendo observada há algumas semanas, como mencionado na semana passada.

Por fim, temos o dólar, cujas apostas se elevaram consideravelmente para o fim deste ano, de R$ 5,25 para 5,45. Há quatro semanas a estimativa estava em R$ 5,20. 

Para o ano que vem, as estimativas também saltaram de R$ 5,25 para R$ 5,45.

Apesar da deterioração das expectativas, o Ibovespa amanheceu com forte alta, de 1,37%, às 10h45, embora isso seja mais um sinal de correção das quedas da semana passada do que necessariamente uma recuperação.

Boletim Focus: aumento das expectativas de inflação; PIB e Selic se mantém

Conforme os dados, a expectativa mediana é que a inflação feche o ano com alta acumulada de 8,51%. Na semana passada, a previsão era de 8,45% para a inflação de 2021.

Essa foi a 26ª elevação consecutiva da estimativa de inflação divulgada pelo Boletim Focus. 

Há um mês, a projeção de alta era de 7,58%, quase 1 p.p. de diferença. 

Vale lembrar que a meta de inflação divulgada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) era de 3,75%.

A margem de tolerância é de 1,5 p.p. (2,25% – 5,25%).

PIB e Selic se mantém estáveis

Por outro lado, os demais indicadores se mantiveram estáveis, o que indica um relativo sucesso por parte do Banco Central (BC) na ancoragem das expectativas dos agentes.

Para o mercado, a expectativa é de que a Selic termine o ano a 8,25%, enquanto que se espera que os juros básicos sejam elevados em 0,25 pontos percentuais em 2022.

Já a previsão do crescimento do PIB também ficou estabilizado em relação ao relatório da semana passada, de 5,04% em 2021 e 1,57% em 2022.

Câmbio se mantém para 2021

O Focus não trouxe alterações para o cenário da moeda norte-americana em 2021 em relação à semana passada. 

A mediana das expectativas para o câmbio no fim deste ano continuou em R$ 5,20, ante R$ 5,17 de um mês atrás. 

Para 2022, a estimativa para o câmbio teve uma leve alta, passando de R$ 5,24 para R$ 5,25, sendo de R$ 5,20 há quatro semanas.

O que é o Boletim Focus?

O Boletim Focus é um relatório semanal divulgado pelo Banco Central com os mais importantes indicadores da economia brasileira. 

O relatório é divulgado no site oficial do BC toda segunda-feira e existe desde 2001.

Nele há um compilado das expectativas em relação aos indicadores macroeconômicos mais importantes para a economia. 

Entre os indicadores analisados estão o IPCA, IGPM, Câmbio, Taxa de crescimento do PIB e a taxa Selic.

Para a sua realização, o BC pesquisa, semanalmente, a projeção de cerca de 140 instituições financeiras com as principais estatísticas do cenário econômico.

Acompanhar as suas projeções é essencial para investidores profissionais. Esse documento revela as expectativas do mercado e indica possíveis tendências de comportamento perante a evolução da economia.