Custo Bolsonaro? Para economistas, problema fiscal não justifica câmbio atual

Não é de hoje que temos ouvido de especialistas que as últimas decisões do governo federal têm sido recebidas da pior forma possível pelos agentes do mercado.

O argumento principal é que os aumentos de gastos anunciados para a implementação do novo programa social e do auxílio aos caminhoneiros colocam em xeque a credibilidade da política fiscal.

Isso porque, para financiar os novos programas, será preciso furar o teto de gastos públicos, e isso, aparentemente, está afastando os investidores estrangeiros.

Porém, apesar de grave, os efeitos deletérios do rompimento de gastos não são tão dramáticos para a sustentabilidade fiscal quando olhamos de um horizonte maior.

Para Sergi Landau, economista chefe do Institute of International Finance (IIF), mesmo que o Brasil burle o teto de gastos, isso colocaria o país em uma boa posição, em comparação com outros emergentes, na gestão das contas públicas.

 “Em 2022, muito poucos países emergentes voltarão aos níveis de gastos de 2019. A maioria está longe da normalização. Se o Brasil ultrapassar o limite de gastos entre 0,4% a 0,8% do PIB, ainda estará longe dos maiores gastadores. Contornar as regras não é bom, mas, colocando na perspectiva geral dos países, as coisas não são terríveis”.

“Se o Brasil gastar 0,4% do PIB a mais em apoio à renda para os pobres, a regra fiscal será violada, mas o gasto primário não será maior do que em 2019. Não é um resultado terrível; a maior parte dos gastos ambiciosos de emergência acabou. Haverá muitas exceções à regra fiscal nos próximos anos”, completou Landau em outra postagem no Twitter.

Robin Brooks, também economista do IIF, afirma que a situação atual do Real é estranha, principalmente quando consideramos a melhora dos termos de troca, devido a valorização das commodities.

“O real do Brasil está quase em seu nível mais fraco de todos os tempos, USD/BRL 5,90, em maio de 2020, durante a primeira onda de COVID. Desde então, os preços das commodities subiram maciçamente, elevando os termos de troca do Brasil e, no entanto, aqui estamos: de volta ao fundo do poço. Não faz nenhum sentido!”, afirmou Brooks em seu Twitter.

Vale destacar também que o cenário fiscal para o fim de 2021 deverá ser melhor do que as estimativas feitas no fim do ano passado, que previam um endividamento de mais de 100% do PIB.

Conforme dados divulgados pelo Banco Central, a relação Dívida Bruta/PIB ficou em 82,7% em agosto. Esse percentual é menor que os 83,1% de julho (dado revisado).

Custo Bolsonaro

Entre agosto e outubro o Real foi a segunda moeda que mais se desvalorizou no mundo, atrás apenas da Lira turca. 

Desde o dia 22 de setembro de 2021 o Banco Central do Brasil (BCB) aumentou a Selic em 250 pontos base, ao passo que o Banco Central da Turquia, surpreendendo os mercados financeiros, reduziu a taxa básica de juros em 300 pontos base. 

Esse cenário indica um paradoxo em que os efeitos da política monetária brasileira vão na contramão da teoria convencional. 

Neste caso, o aumento da taxa de juros levou a uma depreciação da taxa nominal de câmbio, o que deverá aumentar, ao invés de reduzir, as pressões inflacionárias nos próximos meses.

Para o economista José Luis Oreiro, professor do departamento de economia da Universidade de Brasília (UNB), esse paradoxo é explicado pelo que ele chama de “custo Bolsonaro”.

Esse custo seria a combinação entre “política ambiental desastrosa, conflitos diplomáticos frequentes com nosso principal parceiro comercial e a incerteza política causada pelos frequentes ataques do Presidente da República às instituições democráticas do país fazem com que o investidor externo fuja do país como o diabo foge da Cruz”, afirmou Oreiro em entrevista ao El País. 

Ainda segundo o economista, “o aumento da taxa de juros pode ser contraproducente ao sinalizar para os mesmos que as aplicações no Brasil são, de fato, muito arriscadas pois o Banco Central do Brasil é uma das poucas autoridades monetárias do mundo que está aumentando de forma significativa a taxa de juros básica para enfrentar um choque de oferta de caráter temporário que está ocorrendo no mundo inteiro.”

Fed deve aumentar juros antes do previsto

Todos os olhos esta semana estarão voltados para o Federal Reserve (Fed, Banco Central dos EUA), que deve começar a encerrar seu programa de compra de ativos de US$ 120 bilhões por mês com o objetivo de encerrar essas compras em junho de 2022.

Dessa forma, as expectativas do mercado são de que o Fed irá iniciar o aumento dos juros já no próximo ano. 

Antes, o Fed previa alterar as taxas somente em 2024, de modo que a inflação acima da meta de 2% era vista como choque temporário, enquanto que o foco se mantinha em proteger a atividade econômica dos efeitos da pandemia.

O Fed disse que manterá os juros de curto prazo próximos a zero até que o mercado de trabalho atinja o nível máximo de emprego e a inflação suba para 2% de modo a superar esse nível moderadamente por um período. 

Nas projeções econômicas recentes, a maioria das autoridades do Fed previu dois aumentos das taxas de juros até o final de 2023.

Entretanto, com a pressão da inflação durando mais tempo do que o esperado pela autoridade monetária, o sinal de alerta tem acendido nos mercados. 

Há instituições financeiras esperando que o aumento dos juros venha bem antes do previsto, o qual era inicialmente aguardado apenas para 2023 em diante.

É o caso do Goldman Sachs, que antecipou sua projeção da primeira elevação de juros pelo Federal Reserve (Fed) para julho de 2022. 

“Estamos antecipando nossa previsão para a primeira alta nas taxas pelo Fed em um ano inteiro, para julho de 2022, logo após a conclusão da redução do programa de compras de ativos. Esperamos uma segunda alta em novembro de 2022 e dois aumentos por ano depois disso”, argumentou os economistas Jan Hatzius e David Mericle, em relatório enviado aos clientes.

Para os economistas, o aumento dos juros pode inclusive ocorrer sem que o emprego esteja no nível desejado pela autoridade monetária. 

Na avaliação de Hatzius e Mericle, com a inflação muito acima da meta, uma taxa de desemprego abaixo de 4% pode levar o comitê a concluir que a maior parte da ociosidade que ainda resta na participação da força de trabalho é estrutural ou voluntária.

Em setembro, a taxa de desemprego nos EUA foi de 4,8%, ante 5,2% em agosto.

Vale lembrar que nesta semana o Fed deve anunciar o início do “tapering” – processo de retirada gradual dos estímulos monetários por BCs -, provavelmente ao ritmo de US$ 15 bilhões por mês, em linha ao discutido na ata da reunião de setembro.

Quase inversão da curva de Juros no Brasil acende alerta de recessão

Ontem (28/10) o Banco Central (BC) decidiu por aumentar a taxa básica de juros (Selic) em 1,5%. Com isso, a Selic passou de 6,25% para 7,75% ao ano.

Essa reação da autoridade monetária tem sido atrelada à política do governo de flexibilizar o teto de gastos.

Com a deterioração fiscal, grande parte dos analistas temem uma maior pressão sobre a inflação, o que requer um aperto monetário maior para evitar que a situação saia do controle.

O problema é que essa decisão joga pressão sobre a atividade econômica, pois juros mais altos inibem a produção e os investimentos. 

Consequentemente, o contexto da política econômica brasileira gerou reação negativa nos mercados, de modo que os agentes já vislumbram uma estagnação, e outros até mesmo uma recessão, no próximo ano.

Isso é refletido na curva de juros dos títulos públicos, que na verdade deixou de ser curva para virar uma reta.

O que aconteceu foi que os juros de longo prazo estão no mesmo patamar que os juros de curto prazo. 

Tal situação sinaliza que o mercado espera uma desaceleração da economia pela frente, o que implicará na necessidade de um afrouxamento monetário em um futuro próximo.

O que é a curva de juros?

A curva de juros, também chamada de curva a termo, é um gráfico que expressa a taxa de juros cobrada para um título de mesma qualidade mas com períodos de tempo diferentes.

Geralmente, quanto maior o tempo de maturidade de um título, ou seja, quanto mais longo for o seu vencimento, maior tenderá a ser os juros pagos pelo título.

Porém, isso não é uma regra geral, pois pode ocorrer casos em que os juros longos sejam iguais ou até mesmo inferiores aos juros dos títulos de curto prazo.

Assim, além do formato positivamente inclinado, temos que a curva de juros também pode ter inclinação horizontal (também chamada de flat) ou negativa (curva invertida).

Curva de juros no Brasil

No Brasil, atualmente temos uma curva de juros “flat”, pois os juros de longo prazo estão no mesmo patamar dos rendimentos dos títulos de curto prazo.

A literatura mostra que este é um sinal típico de um momento de transição das expectativas em relação ao futuro da economia.

Quando a economia está passando da expansão para uma estagnação, ou até mesmo recessão, os rendimentos dos títulos de vencimento mais longo tendem a cair.

Isso significa que o mercado espera que, em um prazo não tão longo, a autoridade monetária terá que começar a diminuir os juros devido à desaceleração da economia.

O estranho é que ainda não chegamos a acelerar, pois o crescimento deste ano, que provavelmente virá próximo aos 5%, será apenas suficiente para recuperar a recessão de 2020.

Já para o ano que vem, vários analistas do mercado não esperam um futuro muito promissor. 

Segundo o relatório Focus, o crescimento do PIB estimado pelo mercado é de 1,4%. 

Porém, as projeções estão só caindo a cada consulta feita. No início do ano as expectativas eram de que o país cresceria cerca de 2,5% em 2022. 

Inclusive, já há instituições que estão prevendo uma recessão de 0,5% para o ano que vem, como é o caso do Itaú Unibanco.

O Banco Central deve mesmo acelerar o ritmo de aumento da Selic?

De acordo com o boletim Focus, as expectativas da taxa Selic no fim do ano foram de 8,25% para 8,75%, e de 8,75% para 9,50% em 2022.

Porém, o contexto fiscal ruim foi diagnosticado não apenas nas expectativas dos agentes divulgadas no relatório Focus pelo Banco Central (BC), mas também na curva de juros, que começou a semana em forte alta.

Isso reflete o receio do mercado de que o Comitê de Política Monetária (Copom) possa estar preparando um choque de juros para tentar garantir a convergência da inflação para a meta nos próximos anos. 

A taxa do DI para janeiro de 2022 fechou em 8,308%, de 8,190% no ajuste de sexta-feira. Já a do DI para janeiro de 2023 terminou em 11,13%, ante 10,866%. 

A do DI para janeiro de 2025 subiu de 11,507% para 11,64%. Enquanto que o DI para janeiro de 2027 encerrou praticamente estável, saindo de 11,814% para 11,80%.

Segundo Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho, esse cenário indica que a curva dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) tem precificado possíveis altas da Selic acima de 1,25%, chegando a até 2 pontos porcentuais, no encontro da próxima quarta-feira.

Para finalizar a narrativa do aumento da intensidade do aperto monetário, na sexta-feira passada (22/10), Paulo Guedes deu carta branca para que o Campos Neto acelere o ritmo de aperto ao afirmar que o BC tem de ficar à frente da curva, diante da piora do cenário fiscal.

Excesso de aperto comprometerá o crescimento

Apesar das estimativas do mercado indicarem uma reação mais intensa do BC à piora da inflação e das contas públicas, a verdade é que este aumento pode não gerar o efeito desejado.

Isso porque já há analistas de mercado argumentando que o aumento exagerado da Selic pouco impactará a inflação, visto que grande parte dela tem sido alimentada pelos preços administrados e combustíveis.

Soma-se a isso o fato de que o câmbio, que também afeta fortemente o IPCA, tem reagido mais à incerteza política do que às decisões da autoridade monetária.

Diante disso, sem que seja equalizada a questão fiscal, os efeitos do aumento excessivo da Selic podem não ser suficientes para conter as pressões inflacionárias.

E pior, além de não resolver o problema da inflação e a contenção dos ânimos do mercado, a subida dos juros podem comprometer consideravelmente a atividade econômica.

Inclusive, nesta segunda-feira (25/10), várias instituições atualizaram suas estimativas para a macroeconomia, e todas preveem piora no cenário de crescimento e inflação.

O Itaú Unibanco, por exemplo, estima uma queda de 0,5% do PIB em 2022, ante expectativa anterior de crescimento de 0,5%.

Já em relação à Selic, a expectativa é de que seja elevada em 1,5 ponto percentual na próxima reunião, para 7,75%, encerrando o ciclo de alta a 11,25%.

Relatório Focus: piora das expectativas reflete últimas decisões do governo

Como já esperado, as últimas decisões do governo federal foram vistas da pior forma possível pelos agentes do mercado.

Os aumentos de gastos anunciados para a implementação do novo programa social e do auxílio aos caminhoneiros colocam em xeque a credibilidade da política fiscal do governo Bolsonaro.

Isso porque, para financiar os novos programas, será preciso furar o teto de gastos públicos.

Dessa forma, os receios do mercado com a inflação, câmbio, juros e o crescimento do PIB refletiram instantaneamente, na semana passada, na curva de juros dos títulos de dívida do Tesouro e no Ibovespa.

Já no início desta semana, o mal humor dos mercados segue representado pelos dados divulgados no relatório Focus, divulgado pelo Banco Central em todas as segundas-feiras.

IPCA e PIB

De acordo com o relatório, as expectativas dos agentes para as variáveis macroeconômicas deste e do próximo ano pioraram significativamente.

Para o IPCA de 2021, as estimativas passaram de 8,69% para 8,96%, enquanto há 4 semanas estavam em 8,45%.

O cenário ruim também contaminou as expectativas para o ano que vem, visto que a expectativa de inflação foi de 4,18% para 4,4%.

Sobre o PIB, os economistas consultados pelo BC pioraram suas projeções de crescimento, de 5,01% para 4,97%, enquanto há quatro semanas estava em 5,04%.

Para 2022, a estimativa de também caiu, de 1,5% para 1,4%.

Selic

A guinada populista de Bolsonaro e sua equipe econômica elevou as atuais expectativas da taxa Selic no fim do ano, de 8,25% para 8,75%.

Inclusive, muitos analistas já estimam um maior aumento da taxa básica de juros nesta próxima reunião do Copom.

Na reunião desta semana, é esperada uma alta de 125 pontos-base, acima de 1 ponto percentual prometido pelo Copom no comunicado da última reunião. 

A expectativa é de uma alta para 7,5% (antes para 7,25%), de 6,25% atualmente.

Essa mudança de perspectiva já vinha sendo observada há algumas semanas, como mencionado na semana passada.

Por fim, temos o dólar, cujas apostas se elevaram consideravelmente para o fim deste ano, de R$ 5,25 para 5,45. Há quatro semanas a estimativa estava em R$ 5,20. 

Para o ano que vem, as estimativas também saltaram de R$ 5,25 para R$ 5,45.

Apesar da deterioração das expectativas, o Ibovespa amanheceu com forte alta, de 1,37%, às 10h45, embora isso seja mais um sinal de correção das quedas da semana passada do que necessariamente uma recuperação.

Embargo da China à carne brasileira gera excesso de oferta e queda na cotação do boi gordo

Desde o início de setembro, quando surgiu a confirmação de dois casos atípicos da doença “mal da vaca louca”, um em Mato Grosso e outro em Minas Gerais, a cotação do boi gordo caiu cerca de 15%.

Desde 4 de setembro que o Ministério da Agricultura deixou de emitir a certificação para exportação de carne bovina para a China.

Na ocasião, o mercado acreditava em um breve retorno dos embarques, pois se tratava de casos atípicos, que não oferecem riscos à saúde. Porém, não foi isso que aconteceu.

O problema é que desse período até hoje as indústrias não paralisaram totalmente a produção.

Conforme Lygia Pimentel, CEO da consultoria Agrifatto, os frigoríficos seguiram com a produção para a China com a ideia de manter “a roda girando”. 

Para ela, os participantes do mercado tinham em mente o histórico de 2019, quando a suspensão durou apenas 13 dias, e a dificuldade de se encontrar contêineres podem ter pesado na decisão.

“As empresas continuaram produzindo para não perder a oportunidade de venda e o booking do navio. Justamente por essa dificuldade [de contêineres], essas empresas embarcaram cerca de US$ 600 milhões para a China [após a suspensão] sem ter certeza de que as cargas seriam recebidas”, disse Lygia em entrevista concedida ao Valor Econômico. 

Nota do Ministério da Agricultura

No dia 19 (terça-feira), o Ministério da Agricultura publicou um ofício suspendendo a produção para o país asiático e autorizando, pelo período de 60 dias, que os fabricantes habilitados a exportar para a China realizassem a estocagem de produtos bovinos congelados, fabricados anteriormente à suspensão.

Na nota, o Ministério disse que não houve nenhuma nova orientação aos frigoríficos e que o ofício apenas atendeu ao pedido formalizado pelo setor produtivo para estocar os cortes produzidos antes de 4 de setembro.

Nesta quinta-feira (21/10), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Carlos França, conversou com o ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, sobre a retomada das importações de carne bovina brasileira pelo país asiático.

Segundo informou o Itamaraty no Twitter, os ministros “conversaram sobre abertura e diversificação de mercados, incluindo retomada das exportações de carne bovina brasileira”.

Vantagens e riscos

Para alguns especialistas, essa demora na retirada do veto pela China se configura como uma estratégia do país para barganhar por preços menores, visto o contexto de preços elevados.

“O risco sanitário não é motivo real para esse veto, assim como não foi naquela época. É, antes de mais nada, uma questão de barganha. A carne está cara no mundo todo. Eles querem negociar”, disse Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), à CNN.

Por outro lado, esse imbróglio pode ser positivo para os frigoríficos, ao menos no curto prazo. 

Para Lygia Pimentel “O preço do boi caiu mais do que o da carne no atacado Com isso, a margem doméstica melhorou para a indústria. Agora [com a decisão do governo], o frigorífico consegue tirar o ‘prêmio China’ das negociações e consegue pagar menos pelo animal”. 

Porém, no longo prazo, a manutenção da interrupção chinesa poderá atrapalhar o planejamento de pecuaristas e frigoríficos. 

Os números de confinamento estão caindo desde o embargo de 4 de setembro. Caso a suspensão se mantenha por mais tempo, pode ocorrer do fornecimento de carne declinar mais ainda, o que levará a disparada dos preços no começo de 2022. 

Diante disso, podemos dizer que a bola está nos pés da China e o futuro da cotação do boi gordo dependerá da decisão sobre a suspensão ou manutenção do embargo.

Promessa de Bolsonaro piora cenário fiscal e humor dos mercados azeda de vez

Durante visita a Pernambuco, Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou agora a tarde a criação de um auxílio para caminhoneiros autônomos.

Sem especificar muito sobre os valores e como será o pagamento, o presidente afirmou que o benefício será para recompor o valor do diesel e será direcionado para cerca de 750 mil caminhoneiros autônomos.

Uma das formas de distribuição deste auxílio seria a inclusão dos caminhoneiros no programa Auxílio Brasil.

Essa seria uma forma rápida e simplificada de resolver o problema da insatisfação da classe e, de quebra, “embalar” todos os gastos adicionais em uma única proposta de aumento.

Essa decisão veio na esteira das ameaças de greve a partir de 1º de novembro, anunciadas pelos órgãos representativos dos caminhoneiros.

Auxílio Brasil e rompimento do Teto de Gastos

O mercado financeiro brasileiro não teve uma semana fácil. Tudo começou na terça-feira (19/10), quando o governo externou sua intenção de criar um novo auxílio federal de R$ 400.

Para acomodar esse gasto adicional, a proposta do Auxílio Brasil manterá seu orçamento de R$ 34,7 bilhões mais o adicional de um auxílio temporário, no valor de R$ 50 bilhões, que será pago “por fora” do teto de gastos.

Dessa forma, o arranjo desenhado pelo governo estabelece que parte do auxílio será pago dentro do teto de gastos e parte fora.

Esse plano foi, inclusive, reforçado por Paulo Guedes em evento de ontem (20/10), promovido pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc).

Na ocasião, o Ministro da Economia disse (20) que o governo pagará R$ 400 de Auxílio Brasil até dezembro de 2022. A dúvida que ainda paira é sobre como será a alteração do teto de gastos para pagar o benefício.

“Estamos passando de 14 milhões para 17 milhões de famílias e ao mesmo tempo indo para R$ 400. Nenhuma família vai receber menos que os R$ 400. É um enorme esforço fiscal, e o que nós temos discutido aqui é como é que nós podemos fazer isso dentro de toda a estrutura fiscal que nós temos hoje”.

Segundo Guedes, há duas alternativas em estudo para viabilizar o pagamento do benefício, sendo que ambas enfraquecem a regra fiscal.

A primeira possibilidade seria rever o teto de gastos, acabando com o descasamento existente entre as correções do teto e das despesas obrigatórias. Dessa forma, seria possível abrir espaço fiscal no Orçamento de 2022.

A segunda alternativa seria criar um gasto de caráter excepcional, que não seria incluído dentro da regra do teto de gastos. Em outras palavras, seria como deixar esse montante fora da regra fiscal.

Essa licença para “furar” o teto seria limitada a pouco mais de R$ 30 bilhões em 2022, segundo o ministro.

Diante disso, o humor dos mercados azedou de vez, tendo o Ibovespa caído mais de 3% no fim do pregão, e o dólar disparando 1,09%, sendo cotado acima de R$ 5,65.

O que esperar do Banco Central com o fim do teto de gastos?

Não é de hoje que o presidente do BC, Roberto Campos Neto, se mostra incomodado com os rumos da política fiscal implementada pelo governo federal.

Vários foram os recados dados por Campos Neto nos últimos meses sobre os riscos do desequilíbrio fiscal em relação ao controle inflacionário.

Em agosto, o presidente do BC disse que “A coisa mais importante em um país que tem o nível de dívida que o Brasil tem é passar uma mensagem de credibilidade fiscal. É essa mensagem é que vai permitir ao BC fazer o trabalho com o menor nível de juros e maior eficiência”.

Há duas semanas atrás, Campos Neto voltou a mostrar insatisfação com as decisões do governo.

“Credibilidade é super importante. Eu sempre dizia que o BC não era piloto, que o piloto era o fiscal. Mas o que eu queria dizer é que o fiscal é muito importante nesse momento para a gente ganhar credibilidade, para poder aumentar a transmissão de política monetária”, comentou em evento na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

O receio com o descontrole fiscal pode, inclusive, ofuscar os dados econômicos mais fracos, como o arrefecimento da maioria dos componentes do IPCA e queda da atividade econômica.

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, deu indícios de que se o teto de gastos for mesmo rompido, o aperto monetário poderá ser intensificado caso os problemas de gastos do governo indiquem uma pressão maior sobre a inflação.

Em evento promovido pelo banco JPMorgan, Kanczuk disse que “a reação de política monetária à maior probabilidade de cenário de risco fiscal para nós não há dúvida que é uma política monetária mais apertada”.

Na ocasião, sugeriu-se que o BC poderia, inclusive, optar por um aumento maior na Selic caso entenda que o cenário inflacionário para 2022 piore. 

Recentemente, as últimas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) têm levado a taxa básica de juros a aumentar gradualmente em 1 ponto percentual em cada reunião. 

Neste caso, se entender como necessário, a autoridade monetária poderá passar a considerar um ritmo mais firme de aperto monetário, passando a reajustar a Selic não mais em 1%, mas sim em 1,25%.

A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 26 e 27 de outubro.

De acordo com o parecer do último encontro, a expectativa é de que o novo aumento seja de 1%, visto que a inflação no Brasil segue em alta. Porém, como surpresas são sempre possíveis, um aumento de 1,25% começa a ser aventado no mercado.

Guedes cancela ida a SP em meio a indefinições sobre Auxílio Brasil

Às 16h o ministro falaria em fórum promovido pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) e às 19h em premiação promovida pela revista Exame.

Ainda de acordo com a assessoria, Guedes terá despachos internos em Brasília.

A decisão ocorre em meio a indefinições sobre o formato final do Auxílio Brasil após notícias na véspera de que o novo Bolsa Família distribuirá um benefício de 400 reais, com parte do valor sendo bancado fora do teto de gastos, mecanismo que é considerado a principal âncora fiscal do país.

 

(Por Marcela Ayres)